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Meu mundo caiu – Outros países na coleção do Mian

Idealizado por Fabio Szwarcwald.
Curadoria de Ulisses Carrilho.

Sobre a exposição

Em recorte inédito, exposição traz coleção do Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil de volta ao bairro do Cosme Velho, no Rio de Janeiro

 

Mostra reúne 120 pinturas de artistas estrangeiros presentes no acervo da instituição encerrada desde 2016 por falta de recursos

 

O projeto Arte nas Estações, idealizado pelo colecionador e gestor cultural Fabio Szwarcwald, desembarca no Rio de Janeiro no dia 11 de setembro com a exposição Meu mundo caiu – Outros países na coleção do Mian. Realizada na galeria Z42 Arte, no Cosme Velho, a mostra curada por Ulisses Carrilho apresenta, pela primeira vez, um recorte da produção de artistas estrangeiros presentes na coleção do Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil (Mian).

 

“O Arte nas Estações é uma plataforma de ações que visa garantir a permanência deste acervo – que segue à venda – no Brasil. Diante do impasse sobre o futuro da coleção, o projeto vem criando espaços para mostrar sua magnitude”, explica Fabio. O conjunto reunido por Lucien Finkelstein (1931-2008), joalheiro francês radicado no Rio, chegou a somar 6 mil itens de 120 países, destacando-se como o maior acervo de arte naïf no mundo. “Desta vez, apresentamos um recorte ainda desconhecido pelo público em uma nova exposição que só foi possível a partir do patrocínio master da Ortobom Colchões que, entendendo a relevância da causa, nos apoiou com verba direta, sem uso de lei de incentivo”, afirma o gestor cultural.

 

Desde em 2016, quando a instituição suspendeu as atividades por falta de financiamento, as obras foram exibidas em duas iniciativas (igualmente idealizadas por Szwarcwald e curadas por Carrilho) que pretenderam chamar a atenção do público para a relevância do acervo: a exposição-manifesto Arte Naïf – Nenhum museu a menos, montada no Parque Lage (RJ) entre maio e julho de 2019; e o projeto Arte nas Estações, que levou 270 obras da coleção do Mian a três cidades do interior de Minas Gerais, em mostras temáticas apresentadas entre fevereiro e agosto desse ano.

 

Neste terceiro ato, Meu mundo caiu marca o retorno de parte da coleção ao bairro do Cosme Velho, Zona Sul carioca, onde o Mian teve a sua sede. Dentre as cerca de 4 mil obras que atualmente compõem o conjunto administrado por Jacqueline Finkelstein, filha de Lucien, foram escolhidas 120 pinturas de 38 países relevantes para o discurso da geopolítica mundial no ocidente, sobretudo no século 20, privilegiando representações que contribuem para questões contemporâneas.

 

No entanto, Carrilho alerta: "Quem visitar a exposição buscando imagens que se assentem nas próprias expectativas vai se decepcionar. Porque a intenção foi ativar o repertório que a gente tem em relação aos países de todo o mundo, trabalhando a partir dos preconceitos", explica o curador. "Vamos reposicionar as expectativas com relação ao que é prosaico, onírico e imaginativo".

 

As obras são apresentadas por aproximação temática ao longo das cinco salas expositivas da Z42 Arte – edifício de arquitetura eclética dos anos 1930, que já foi sede da embaixada da Jordânia no Brasil e casa do embaixador do Japão.

 

O recorte inédito da coleção traz cenas de protestos, de organização coletiva e do jogo social de países como Afeganistão, África do Sul, Austrália, Bangladesh, Cambodja, Chile, China, Chipre, Colômbia, Congo, Cuba, Egito, Equador, Eslováquia, Espanha, Estados Unidos, França, Guatemala, Geórgia, Haiti, Holanda, Ilhas Maldivas, Índia, Inglaterra, Irã, Israel , Itália, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Polônia, Portugal, Quênia, Sri Lanka, Tanzânia e Vietnã.

 

Se as obras formam a primeira camada visual da exposição, as paredes da Z42 contribuirão para a construção de novas narrativas através da pintura imersiva criada por Rafael Alonso, artista convidado a interferir no espaço expositivo. A participação dele repete a parceria da mostra realizada em 2019, no Parque Lage (Arte Naïf – Nenhum museu a menos). Ao escapar da ideia de cubo branco, a ativação pretende contrariar a neutralidade dos museus.

 

"O desafio consiste em produzir um trabalho que vá além da cenografia para a montagem, mantendo sua integridade como site specific, sem se sobrepor aos trabalhos com os quais vai dialogar", explica Rafael. "A premissa curatorial – da articulação entre os artistas autodidatas e os que têm ensino formal – toca justamente no que me interessa discutir como pintor: Que sentido ainda pode existir em produzir a separação entre alta cultura e cultura popular?"

 

O título da exposição se relaciona com a cultura pop ao carregar o nome da canção clássica de Maysa (1936-1977). De acordo com a curadoria, “meu mundo caiu” tem a ver com a queda das expectativas e falência das ideias. Já a referência a outros países relembra que a exposição não trabalha a partir de uma condição estrangeira, por assumir que esta é a situação de todo ser humano, estando ou não em seu território de origem.

 

“É uma perspectiva decolonial entender que sujeito nenhum pertence a lugar nenhum, e que todos deveriam ter a possibilidade de trafegar pelo mundo com liberdade. Se escutarmos de maneira atenta, se compreendermos a questão dos refugiados, das diásporas e do imperialismo, não há outra alternativa, é preciso estar disposto a reorganizar o mundo. E a arte faz parte dele".

 

Propondo ao público uma leitura que extrapola o repertório imagético construído pela mídia, a curadoria acredita que a arte pode disparar a criação de outros imaginários que ultrapassam as organizações geográfica, geopolítica, colonial e imperialista.

 

"Essa exposição é ingênua, mas a ingenuidade está no curador e não no artista. A ideia é animar a alma e nos fazer perceber que nossa construção imagética vem de um repertório que extrapola o campo da arte e está muito ligado aos meios de comunicação de massa e ao nosso fetiche por violência e humilhação", reflete. O dia da inauguração da mostra – 11 de setembro – também reforça a constatação desse imaginário criado a partir de eventos como a queda das Torres Gêmeas em 2001, nos Estados Unidos, e o golpe de estado no Chile, em 1973.

 

"Essa é uma exposição que se constrói em quintais e aldeias, e não em palácios e casas de governo. É uma possibilidade de percebermos que, se hoje entendemos que determinados países só produziram desastres, é muito mais pelo processo de colonização do nosso pensamento", analisa o curador. "Qualquer lugar do mundo pode discutir o mundo, não apenas as grandes potências. Todo sujeito carrega uma perspectiva única. Sobretudo no mundo da arte, precisamos perceber as dinâmicas de poder e o lugar de fala. Entender a diferença como um valor pode mudar a maneira como usamos e construímos nossos repertórios. E isso não pode ser naïf”.

 

Meu mundo caiu – Outros países na coleção do Mian tem patrocínio master da Ortobom, líder do mercado de colchões no país, patrocínio da Rádio JB FM e apoio do empresário e colecionador Luís Paulo Montenegro.

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