ID

Artistas: Alvaro Seixas, Andrew Silva, Augusto Portella, Bel Petri, Caio Pacela, Glaucia Leme, Gustavo Magalhães e Rafael Alonso.

Curadoria: Christiane Laclau

Sobre os artistas

ID

A abreviação em língua inglesa de identity é também a sílaba que denomina a instância mais básica da personalidade. Para Freud, o id é a fonte da libido, que funciona segundo o Lustprinzip (o princípio do prazer), é formado pelas pulsões, pelas urgências biológicas e pelos desejos inconscientes. Combinado ao ego e ao superego, compõe o tripé psicanalítico que dá forma à complexa variedade de comportamentos humanos: a ID de cada indivíduo.


A questão da identidade, em suas várias manifestações, está hoje no centro das atenções e foi o que motivou a provocação feita ao grupo de oito artistas convidados para essa exposição. A proposta de que apresentassem retratos em pintura remete ao Renascimento e ao surgimento do antropocentrismo, com a consequente valorização das individualidades. Contemporaneamente a pintura espelha o prazer pessoal do reencontro com o pincel, a tela, a representação figurativa e com a própria fatura artística. Obras sobre identidade são o fio condutor da mostra. Não somente os rostos, igualmente todo e qualquer fragmento de singularidade que se manifesta através deles, individuando e gerando identidades.


A fusão de pulsão e identidade está expressa nas substanciosas e vigorosas pinceladas que dão forma e personalidade aos retratos de Rafael ALONSO. Um experimento de gesto, forma e cor que reflete sobre a passagem do tempo. O artista, que costuma filtrar a realidade pela lente do sarcasmo e da ironia, ao se autorretratar, assume uma identidade sóbria e enigmática, que alimenta a curiosidade do observador e o instiga em especulações a respeito do estado de espírito do modelo.

 

Em contraponto, Gláucia LEME desafia-se ao pausar sua pesquisa do panejamento para imprimir humor e ironia nas imagens de mulheres habitualmente identificadas como belas, recatadas e do lar. Um olhar voyeur que subverte a imitação da realidade que ela assistia nas séries de TV ao longo do confinamento.

Gustavo MAGALHÃES não busca imortalizar-se retratado, mas investigar seu corpo e etnia ao pintar fragmentos de identidades e ideias para descobrir o que o faz ser o que é e também pensar como esses pensamentos se refletem em sua pintura. Ao se dividir em partes nos retratos, ele expõe questões pessoais e coletivas sobre a não-cor da pele, foco da pesquisa da série “sem-título ou pardo”. O artista, filho de pai preto e mãe branca, em um não-lugar que dificulta a percepção de situações de racismo em nossa sociedade, tem como subtexto da obra a dificuldade de identificação, reconhecimento e pertencimento imposta aos miscigenados.


Cenas observadas pela janela de um veículo em alta velocidade, quando a percepção dos detalhes não importa na contemplação do conjunto. Essa é a chave que Caio PACELA propõe para o entendimento de sua obra. Ao se apropriar de memes capilarizados pela web para criar pinturas de realismo fotográfico, ele aposta na criação de uma zona de penumbra cognitiva que ofereça ao observador a oportunidade de mergulhar em suas próprias camadas de interpretações e significados. Essa estratégia realça a sensação de mistério presente na aura com que o artista reveste as situações ordinárias de modo a torná-las extraordinárias.


Para Bel PETRI, a pintura, antes um território seguro nas artes, é hoje terreno para experimentações que buscam formas de sobrevivência na avalanche estressante de visualidades do contemporâneo. Sua pesquisa encontra inspiração no sexting, a troca de nudes entre namorados ou amantes casuais, especialmente daqueles que ficaram impedidos do contato físico durante a pandemia. Um erotismo afetivo e doméstico, misturando nudez, sensualidade e animais de estimação em cenas caseiras que remetem à literatura de cordel e aos “catecismos” de Carlos Zéfiro. Retratos de amor, tesão, desejo e carinho resgatados nos históricos de mensagens e eternizados em madeira.

A carga psicológica da figura humana é o objeto de interesse da pintura de Augusto PORTELLA, artista que busca reinterpretar a simbologia do retrato no séc. XXI e inseri-la no pensamento contemporâneo. Sua pesquisa sobre o tema do memento mori (lembre-se de que você vai morrer) resultou na série “Desengano”, um registro de personalidades da história recente do país, selecionadas pelo artista no cemitério São João Batista (Rio de Janeiro/RJ). Pinturas graves e solenes, que emergem nas pinceladas densas de uma paleta monocromática, são utilizadas pelo artista para traçar narrativas que se cruzam. Dentre elas, a ironia que sepulta oprimidos e opressores sob o mesmo código de endereçamento postal, o popular CEP.


Por sua vez, as pinturas de Alvaro SEIXAS incorporam imagens e textos que a comentam ou lhe acrescentam camadas de reflexão. Ao questionar o hype, certa dimensão narcísica do retrato, o respeito às etiquetas do mercado de arte, a “produtificação” do Eu e a cooptação de debates importantes pelo sistema, as obras tanto seduzem o olhar quanto criticam a instituição.


O Clóvis, personagem icônico do tradicional carnaval de rua nos subúrbios do Rio, é o assunto escolhido por Andrew SILVA. As fantasias de colorido exuberante, que camuflam identidades durante a folia, são um retrato misterioso e ambíguo da alma etérea. O artista, ele mesmo um ex-bate-bola (como também são chamados os palhaços suburbanos), tem conexão pessoal com o tema. Os representa femininos, mas também aterradores, sobre fundos chapados em cores vivas, de onde se destacam como miragens. Uma aparição potencializada pelo uso de iluminação e o estudo de alternativas originais para o relacionamento da obra com o espaço.


A exposição ID é um encontro com poéticas bastante distintas, desenvolvidas na trajetória artística de cada um desses oito artistas, quase todos residentes no estado do Rio de Janeiro. As obras aqui reunidas nos oferecem um recorte da produção de pintura em retratos no século XXI, apresentando trabalhos desse gênero que está presente ao longo de quase toda a História da arte.


Christiane Laclau, curadora
*texto com a colaboração de Guillaume Isnard